Auschwitz e o poder da ficção

Foi automático. A primeira coisa que pensei quando enxerguei o portão de Auschwitz II-Birkenau – de longe, ainda de dentro do ônibus – foi nos filmes que vi cujos cenários são campos de concentração.

Ficção. No momento em que eu vivia um dos maiores choques de realidade da minha vida, o que eu conseguia pensar era em ficção. À medida que avançávamos caminhando por entre os trilhos que há pouco mais de 60 anos significavam a morte para milhares de pessoas, meus pensamentos se afastavam cada vez mais do real.

Ao imaginar os trens que cruzaram por aquele pórtico cuja abertura tem o tamanho exato de um vagão, eu lembrava de uma cena de O Pianista em que a família de Wladyslaw Szpilman era jogada para dentro de um deles. Ao abrir a porta de um barracão, eu enxergava o que Giosué – o filho de Roberto Benigni em A Vida é Bela – viu quando voltou com o pai de um dia de trabalho forçado. Ou ao pensar em como era o campo no inverno, logo me vinha à cabeça a cena de Sunshine em que Adam Sors, um dos personagens interpretados por Ralph Fiennes, é congelado vivo sob o olhar dos outros prisioneiros.

Cena da morte de Adam Sors, que, na vida real, se chamava Attila Petschauer e realmente morreu dessa forma

Eram tantas as referências que eu cheguei a ficar um pouco incomodado. Eu caminhava por Auschwitz e comparava cenas de ficção (reconstruções do real) com a minha própria capacidade de imaginar o que havia acontecido lá. Em alguns momentos eu achava que algumas interpretações – a aí de cima, por exemplo – tinham me impressionado mais do que alguns sítios, como as ruínas de uma câmara de gás, por exemplo. E tinham.

Claro que há experiências sem comparação. Ouvir o rangido da porta de madeira de um barracão por uns dois segundos, que é mais ou menos o tempo que os olhos levam pra se acostumar com a escuridão lá de dentro, é, sim, uma sensação muito ruim. Mas quanto estamos imersos no imaginário (realista) de uma obra de ficção, assistir ao sofrimento humano pode ser tão impactante quanto enterrar o pé no barro de Auschwitz.

Mas sempre vai ser ficção, disse a Marcela ao ver a cena do congelamento de Adam Sors. Sim, exato. Mas me parece que uma função fundamental da ficção nesse caso é funcionar como uma espécie de ajudante da nossa imaginação. Ainda que se trate de atuações, de cenários, de personagens fictícios, ela reproduz em cores, com intensidade dramática e fidelidade histórica algo que realmente aconteceu com milhares. Na falta de relatos mais próximos, ela dá cara à história. Transforma o geral em algo próximo, particular, mais fácil de ser sentido, percebido, entendido.

É como dar um rosto conhecido às milhares de pessoas que desciam daqueles trens e caminhavam em fila rumo à morte nas câmaras de gás.

*Post originalmente publicado no blog O Coala.

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