Do universo de cachaças em Minas Gerais, a mais fodona se intitula Anísio Santiago. Custa R$ 280 na promoção. Há quem pague R$ 400 pela garrafa. Que belo, hein? Pois fiquei sabendo disso depois de muito rallye pelos bares de Ouro Preto. Sempre em busca de uma cachaçaria. Porque eu queria tomar uma tchatcha, uma pinga. Quem sabe até uma dose de Anísio Santiago, ao preço de R$ 30 – pode chegar a R$ 70.
Nada feito.
Por quê?
Porque cachaçaria para os caras é um lugar onde se vende garrafas, e não um boteco que dê a chance de experimentar as centenas de marcas.
O périplo para tomar minha tchatchinha foi demoníaco. Dias e dias atrás da mardita. Até que vi um policial. Jesus, como tinha cara de bebum o desgraçado. Pensei que ele devia saber como achar uma cachaçaria em que fosse possível BEBER.

Ele indicou um lugar ribanceiras abaixo. Fomos.
Guardinha cabra da peste. Era outra cachaçaria de garrafas.
Pelo menos dei uns tapas em umas doses e saí de lá decidido a tomar uns chopes e mais cachaça no bar onde te cobram R$ 4 de couvert por umas coisas ruins que tocam lá.

No final do expediente, a conta: R$ 54 entre cachaças, chopes e um prato do pior aipim frito da humanidade.
Como aqui é o mundo da tchatcha, é foda para os camaradas se manterem longe da dita. O pessoal, principalmente o de rua, entra nos copos e nas garrafas e sai de lá dançando e fazendo a alegria do povo pelas ruas. Que nem esse grupo aqui, ó:
VÍDEO: BEBUNS NAS RUAS DE OURO PRETO
Foi belo. Levantei para buscar uns cigarros e um deles me abordou. Ele queria um real. Argumentei com o pinta:
- Meu, um real não PASSA DE NADA. Vou comprar cigarros e vou te dar DEZ para distrubuir para a galera.
Ele largou um sorrisão muito massa.
E, bom, eu tomei minha tchatcha, enfim:

Constantemente, porém, dá de esse negócio de bebida ficar um saco. Que nem no bar em que fomos um dia, na Rua Conde de Bobadela. Fiquei abobalhado quando cheguei do banheiro e um cara impedia minha passagem. Falei:
- Me bloqueou.
Dei a volta e sentei. Aí a Simone falou:
- Ele tinha sentado no teu lugar. Ficou me dizendo umas coisas, fingi que nem ouvi, nem entendi mesmo. O cara tá muito bebum.
Pensei: son of a bitch.
Aí ele veio com a carga, com sua cara pastosa e sua barba de pintor de sótãos.
- Eu não te bloqueei.
- Ah. Tá.
- Tá com ela?
- Sim.
- É a Bela Adormecida.
- Ah, é?
- Você dá conta?
- Claro.
Aí a Simone interrompeu. Disse que ia ao banheiro. Ele continuou:
- O Haiti é aqui.
- ?
- O Haiti é aqui. Sabe a música aquela?
- Sei.
- O Haiti é aqui. Não é aqui? Hein? Hein?
Esses heins, heins me deixaram muito puto. Credo. Ele não podia ter dito esses heins, assim, como se eu não soubesse que música era aquela. Me senti atingido. Decidi que devia humilhar aquele maltrapilho.
- Tu sabe que língua se fala no Haiti?
- Francês.
- Tem mais uma língua oficial.
- Francês.
- Tu não sabe de nada.
- Eu era médico.
- Em Cuba?
- O Haiti é aqui.
- O Haiti nem existe mais.
A Simone voltou.
- O Haiti é aqui.
- Ele não para de falar isso. Onde fica o Haiti?
- O Haiti é aqui.
- Sabe onde ficam as Antilhas?
- Que menina bonita.
- Cara, te liga. Tá nos enchendo o saco.
- Eeeu? Enchendo o saco?
- É. Tá, sim.
O garçom se aproximou.
- Ele tá incomodando vocês?
- Sim. Muito.
O garçom falou algo pro cara. Não adiantou. Ele seguiu elogiando a Simone. Aí resolvi xingá-lo como nunca:
- Tu não tem que pescar amanhã?
Houve um nó rápido no cérebro do cara. Aí ele voltou mais enfezado. Só que não dava para entender nada. Aí falei para a Simone que sempre tive um desejo secreto de surrar um bêbado indefeso. Ela garantiu que não valia a pena.
Meeeerda. Sugeri trocarmos de mesa. Levantei e bati a garrafa com tanta força na mesa nova que voou cerveja. Ao mesmo tempo, o cara levantou. Achei que ia partir pra cima. Só que ficou assim: ele foi pro balcão e nós permanecemos sentados.
- Esse teu namorado (sic) é muito tranquilo. Se fosse eu já tinha arrebentado esse cara – comentou o garçom para a minha companheirinha, enquanto eu estava no banheiro.
- Ele tava ficando muito brabo.
Voltei e fiquei sabendo. Aí rebobinei um pouco. O garçom era muito phoda. Eu estava na janela da mesa anterior um pouco antes de o bebum chegar. Segurava um Lucky Strike (It’s Toasted!) entre os dedos da mão esquerda quando VUPT. O cigarrinho me foi surrupiado por um OUTRO bebum. Aí o bebaço entrou no bar. Começou a pedir cigarros para a turistada. Chegou o garçom. O bartender encheu o bêbado de sopapos. Era um grande garçom. Hey, garçom, you’re a big, big bartender.