<1right> Qualquer Lugar <1/right>

Jiló, quiabo e angu, tchau pra tu

Posted January 27th, 2010 by André Mags. Comment (0).

Só para enfiar um rachão na belíssima produção do Fuga Número Dois, vou encerrando minha participação em mais uma trip dos 7Errantes com uma notícia redentora: o mundo não acabou. É, porque em um só dia comemos jiló, quiabo e angu. Tudo concatenado para o apocalipse. Que não veio.

E se todos diziam que nada disso tem gosto, fica a certeza de que é verdade, tudo depende muito do tempero, senão, parece água com sal. Olha que beleza esses restos no prato (isso tudo foi comido, não vomitado. Esqueça a estética pelo menos por um segundo). Angu é  o que parece polenta. O outro troço é quiabo.

Realmente os mineiros sabem que o negócio é simplório. Ainda assim, a galinha com quiabo e angu é um dos pratos principais do Estado. Há quem confirme que se come isso somente em dias especiais. E há quem renegue:

- Prefiro polenta italiana. É bem mais gostosa e crocante - disse o dono de um restaurante em Ouro Preto.

Eu preferi o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Guarulhos, quer dizer, desculpe, em Congonhas. Uma das obras máximas de Aleijadinho, contém Os Profetas, conjunto de 12 estátuas em frente à basílica branquinha, sem qualquer traço de pichação.

Ladeando a basílica aparece a Sala dos Milagres. Aí começa a bizarrice. São centenas de votos por graças alcançadas. Esse abaixo deve ter sido a graça alcançada  pelo cara cuja sogra estava no ônibus que virou, possivelmente fazendo o trajeto Ouro Branco-Ouro Preto.

Repare nas pessoinhas no chão, mortinhas, e as fotos de cada uma.

Para encerrar o show de estranhezas, me aparece uma estátua do Rocky Balboa vitorioso em plena Sala dos Milagres. Um milagre.

Findo com uma bela sequência de imagens em Mariana. São as coisas que ficam de óóó, Minas Gerais, óóó, Minas Geraaaais.

Que lindo isso, uai! Tchau pra vocês. Ohhhh, Minas Geraaaais! Ohhhh, Minas Geraaaaaais!

A saga da cachaça – ou o Dia de Brigar com Bebum

Posted January 23rd, 2010 by André Mags. Comment (1).

Do universo de cachaças em Minas Gerais, a mais fodona se intitula Anísio Santiago. Custa R$ 280 na promoção. Há quem pague R$ 400 pela garrafa. Que belo, hein? Pois fiquei sabendo disso depois de muito rallye pelos bares de Ouro Preto. Sempre em busca de uma cachaçaria. Porque eu queria tomar uma tchatcha, uma pinga. Quem sabe até uma dose de Anísio Santiago, ao preço de R$ 30 – pode chegar a R$ 70.

Nada feito.

Por quê?

Porque cachaçaria para os caras é um lugar onde se vende garrafas, e não um boteco que dê a chance de experimentar as centenas de marcas.

O périplo para tomar minha tchatchinha foi demoníaco. Dias e dias atrás da mardita. Até que vi um policial. Jesus, como tinha cara de bebum o desgraçado. Pensei que ele devia saber como achar uma cachaçaria em que fosse possível BEBER.

Ele indicou um lugar ribanceiras abaixo. Fomos.

Guardinha cabra da peste. Era outra cachaçaria de garrafas.

Pelo menos dei uns tapas em umas doses e saí de lá decidido a tomar uns chopes e mais cachaça no bar onde te cobram R$ 4 de couvert por umas coisas ruins que tocam lá.

No final do expediente, a conta: R$ 54 entre cachaças, chopes e um prato do pior aipim frito da humanidade.

Como aqui é o mundo da tchatcha, é foda para os camaradas se manterem longe da dita. O pessoal, principalmente o de rua, entra nos copos e nas garrafas e sai de lá dançando e fazendo a alegria do povo pelas ruas. Que nem esse grupo aqui, ó:

VÍDEO: BEBUNS NAS RUAS DE OURO PRETO

Foi belo. Levantei para buscar uns cigarros e um deles me abordou. Ele queria um real. Argumentei com o pinta:

- Meu, um real não PASSA DE NADA. Vou comprar cigarros e vou te dar DEZ para distrubuir para a galera.

Ele largou um sorrisão muito massa.

E, bom, eu tomei minha tchatcha, enfim:

Constantemente, porém, dá de esse negócio de bebida ficar um saco. Que nem no bar em que fomos um dia, na Rua Conde de Bobadela. Fiquei abobalhado quando cheguei do banheiro e um cara impedia minha passagem. Falei:

- Me bloqueou.

Dei a volta e sentei. Aí a Simone falou:

- Ele tinha sentado no teu lugar. Ficou me dizendo umas coisas, fingi que nem ouvi, nem entendi mesmo. O cara tá muito bebum.

Pensei: son of a bitch.

Aí ele veio com a carga, com sua cara pastosa e sua barba de pintor de sótãos.

- Eu não te bloqueei.

- Ah. Tá.

- Tá com ela?

- Sim.

- É a Bela Adormecida.

- Ah, é?

- Você dá conta?

- Claro.

Aí a Simone interrompeu. Disse que ia ao banheiro. Ele continuou:

- O Haiti é aqui.

- ?

- O Haiti é aqui. Sabe a música aquela?

- Sei.

- O Haiti é aqui. Não é aqui? Hein? Hein?

Esses heins, heins me deixaram muito puto. Credo. Ele não podia ter dito esses heins, assim, como se eu não soubesse que música era aquela. Me senti atingido. Decidi que devia humilhar aquele maltrapilho.

- Tu sabe que língua se fala no Haiti?

- Francês.

- Tem mais uma língua oficial.

- Francês.

- Tu não sabe de nada.

- Eu era médico.

- Em Cuba?

- O Haiti é aqui.

- O Haiti nem existe mais.

A Simone voltou.

- O Haiti é aqui.

- Ele não para de falar isso. Onde fica o Haiti?

- O Haiti é aqui.

- Sabe onde ficam as Antilhas?

- Que menina bonita.

- Cara, te liga. Tá nos enchendo o saco.

- Eeeu? Enchendo o saco?

- É. Tá, sim.

O garçom se aproximou.

- Ele tá incomodando vocês?

- Sim. Muito.

O garçom falou algo pro cara. Não adiantou. Ele seguiu elogiando a Simone. Aí resolvi xingá-lo como nunca:

- Tu não tem que pescar amanhã?

Houve um nó rápido no cérebro do cara. Aí ele voltou mais enfezado. Só que não dava para entender nada. Aí falei para a Simone que sempre tive um desejo secreto de surrar um bêbado indefeso. Ela garantiu que não valia a pena.

Meeeerda. Sugeri trocarmos de mesa. Levantei e bati a garrafa com tanta força na mesa nova que voou cerveja. Ao mesmo tempo, o cara levantou. Achei que ia partir pra cima. Só que ficou assim: ele foi pro balcão e nós permanecemos sentados.

- Esse teu namorado (sic) é muito tranquilo. Se fosse eu já tinha arrebentado esse cara – comentou o garçom para a minha companheirinha, enquanto eu estava no banheiro.

- Ele tava ficando muito brabo.

Voltei e fiquei sabendo. Aí rebobinei um pouco. O garçom era muito phoda. Eu estava na janela da mesa anterior um pouco antes de o bebum chegar. Segurava um Lucky Strike (It’s Toasted!) entre os dedos da mão esquerda quando VUPT. O cigarrinho me foi surrupiado por um OUTRO bebum. Aí o bebaço entrou no bar. Começou a pedir cigarros para a turistada. Chegou o garçom. O bartender encheu o bêbado de sopapos. Era um grande garçom. Hey, garçom, you’re a big, big bartender.

A 120 metros no fundo da terra

Posted January 22nd, 2010 by André Mags. Comments (2).

Foi com o enjoo de ver obras sacras que apareceu como a grande pedida do dia, conhecer as Minas da Passagem, entre Ouro Preto e Mariana. Com 30 mil metros de túneis a 120 metros abaixo do solo, daria uma quebra nos santos e aleijadinhos.

Lá dentro trabalharam 3 mil homens. Trinta e cinco toneladas de ouro foram retiradas durante mais de cem anos. Na época, se conseguia o esbanjamento de 30 gramas de ouro por tonelada de pedras. Em 1985, data da desativação total, a mina se tornou economicamente ineficiente, pois rendia entre quatro e oito gramas de ouro por tonelada de pedras. Parece pouco. Mas 30 também. Enfim.

Clique aqui e veja o vídeo da descida na mina

Rebobinando. Um francês que adora o Brasil estava conosco no passeio e causou algum interesse na Simone. O cara estava indo bem, falando um português espanholado, mas ok. Então ele fez algo.

- Tu viu como ele botou a mão na coxa do guia?

Eu vi, mas que que tem? Para a minha companheirinha, isso foi a maior baitolagem. Ei, Yannick, não faz isso no Brasil, camarada. Aqui a galera não faz beicinho pra dizer i com som de u.

Vamos de Comércio Lubrificantes Peças?

Posted January 21st, 2010 by André Mags. Comments (3).

Senti na espinha o susto de ver de novo o que já tinha visto. Transporte na região de Ouro Preto = transporte peruano. Acho que o dono da loja Comércio Lubrificantes Peças resolveu investir no setor e meteu uma empresa de ônibus com o nome igual. Ia dar merda. É impossível fazer uma conexão à tarde entre Ouro Preto, Ouro Branco e Congonhas, onde fica a basílica mais massa de Aleijadinho. Nego chega às 13h em Ouro Branco e o cara abre a porta do coletivo. Corre! A galera sai em debandada até o box da Comércio Lubrificantes Peças e já era. Tinha saído há dois minutos. Viva a Comércio Lubrificantes Peças!

Irritantemente o que ocorre é o seguinte: perdeu o busão das 13h, só tem outro às 15h. Impossível. Até Congonhas desde Ouro Branco dá 40 minutos. Para chegar lá no picão onde fica a basílica, a caminhada toma cerca de uma hora  ida. Mas deixa pra lá tudo isso. É só reclamação de quem esfolou os pés no montanhão. O negócio é que a volta a Ouro Branco é às 18h15min. Só que a saída para Ouro Preto é às 19h. Muito arriscado. Parece briga de chocolate branco contra chocolate preto. É sentir-se muito só no meio desse ódio contra as conexões:

Viu que não tinha ninguém? É bem assim. Ninguém faz esses trajetos.

No meio disso tudo perpetuam-se umas histórias. Tipo o que o motora disse para a mulher com uma mala na mão diante do bagageiro aberto.

- O bagageiro tá sujo. Vai querer botar a mala assim mesmo?

- Sim.

É assim que as coisas são, meio peruanas. Pegamos um táxi de Ouro Branco a Congonhas, que eu vivo chamando de Guarulhos. Deu 50 pilas com a esticada até a basílica. Mas nós fomos espertos e metemos um tal de Dênis e uma acaboclada no carro. Eles pagaram cinco pilas cada porque não tinham mais grana e porque desciam antes. Entregamos os R$ 40. E a viagem foi tão boa. Todo mundo em silêncio:

Indefectível maciota dos mineiros. Pergunto pro taxista quanto tempo levará e ele responde com cócegas na cabeça:

- Meia hora, se não tiver parada nenhuma na estrada.

A parada na estrada eram obras na estrada. Rolou também na volta a Ouro Preto, pois o ônibus atrasou meia hora para nos recolher e nos entregar à terra do Aleijadão. Aleijadão, sim, porque o cara é mucho fuedas. Ele fez isso abaixo, e ainda apareceu encarnado no cara de vermelho se contorcendo em seus problemas físicos à direita na foto:

Concomitantemente ao folclore que se formava sobre o transporte regional interiorano mineiro, eu fui pra cima de uma mineirinha. Garanti à gata que a Simone, minha amiga arquiteta que me acompanha na viagem, era a minha irmã. É que a mineira podia achar que eu era um cafajeste. A guria era vendedora de passagens da Comércio Lubrificantes Peças. Mas bem jeitosa. Fui até o balcão e perguntei uns lances desimportantes sobre viagem de bus. Ficou claro que eu queria puxar assunto do nada.

Me dispensou momentaneamente.

Mas voltei. E reclamei que o ônibus estava atrasado e MINHA IRMÃ ESTAVA COM FRIO. A garota não quis polemizar. Eu caí fora de novo.

Então ela VEIO. Chegou na MACIOTA demonstrando preocupações e carências até, acho. Desencadeamos a conversa e, veja só, chegou o busão.

Ela SORRIA. Mas cabou-se tudo.

Eis que tem uma imensa fila pro bus. Umas sete pessoas. A menina olhava lá de cima na estação. Me aproximei. Ela SORRIU. Falei:

- Quer ir pra Ouro Preto?

- Quando?

- Sexta-feira.

- Hum… é muito longe.

- Não é nada.

- É sim.

- Então, é.

- Ééé…

- Tá bem. Tchau.

- Tchau.

Atravessamos a Transilvânia no meio da chuva e da sombra. Simone falou que estava com frio. Ela estava gelada e nem fazia tanto frio. A abracei e peguei as mãos da minha “irmã” entre as minhas. Foi como cruzar a terra de Drácula ou  fazer o trajeto Cusco-Puno ou Guarulhos, perdão, Congonhas-Ouro Preto. Chegamos perto das 20h30min a Ouro Preto, minha companheirinha e eu. A chuva ainda caía. As gotas aos poucos furam a pedra-sabão das estátuas dos profetas de Aleijadinho na basílica de Congonhas. Nós, não. Chegamos inteiros ao Sorriso do Lagarto.

“Ele não me beijou, ele não me tocou”

Posted January 19th, 2010 by André Mags. Comments (4).

Essa cidade tem feito me lembrar de Cusco, no Peru. Aliás, vê-se poucos cuscos em Ouro Preto. De lado a infâmia, as ruas irregulares e as construções da época colonial são escancarados uma semelhança. Mas sabe o clima modorrento de um lugar sem ter muito o que fazer a não ser turismo? É, tem um lado assim. Azar. O chope grandão custa R$ 4, o caldo de cana, R$ 0,50, a garrafinha de água, R$ 1. Preços quase, nesse caso, bolivianos – para um porto-alegrense. E tem as lojinhas que nem essa:

Inclusive vendem jornalista. Vem com máquina digital de brinde.

Só que não era sobre isso o assunto. Era sobre quando entrei na Casa da Ópera, hoje chamado de Teatro Municipal. No mais antigo no ramo em atividade na América do Sul, inaugurado em 1770, eis que ouço uma voz aveludada. Uma menina cantava explendidamente no palco.

Alternativazinha e tal. Saquei-lhe umas fotos. Aí sentei em uma cadeira e fiquei acompanhando. A letra era algo como o seguinte:

“Ele não me beijou, ele não me tocou. Ele me seduziu.”

Fui embora.

Do pão de queijo ao feijão tropeiro

Posted January 19th, 2010 by André Mags. Comment (0).

Um dia pode começar às 9h em Ouro Preto com um pão de queijo tamanho família por menos de R$ 2.

Finalização do dia também rolou por causa de comida, por volta das 14h. Foi o feijão tropeiro. No restaurante Boca da Mina (ao lado da Mina do Chico Rei), fazem um arroz muito bom. Em uma panela de ferro à parte enfiam o feijão, carne de porco, farofa, ovo frito, linguiça de porco e o desgraçado do torresmo. Por fora vem ainda couve frita. O cara preveniu:

- Sabe que é tudo meio seco, né?

Nem era. É tão gorduroso que a secura se esvai. Depois, subir as ladeiras da cidade custou o fim dos passeios do dia lá pelas 17h. O negócio é perfeito para fazer dormir. E é bom. É bom, diabos. Nunca pensei que falaria bem de um prato com feijão.

Minha guia particular

Posted January 19th, 2010 by André Mags. Comment (0).

A Simone é uma explosão de simpatia e dores nas pernas pelas caminhadas, tudo com um TOC arquitetônico: ela fotografa rachaduras e me explica que por baixo tinha um esquema e por fora tinha outro que de alguma forma nada tinha de ser colocado lá. Sou um privilegiado nessa cidade. Só eu tenho uma mestre em arquitetura e professora do curso de Turismo para me explicar que o Baldaquino lá do Vaticano e as intervenções do Aleijadinho são parentes, com o sobrenome Barroco. Abaixo, a Simone em ação argumentando com um vendedor de guias no reflexo do vidro de um carro em frente à Igreja da Ordem Terceira de São Francisco. Ordem terceira era a ordem formada por leigos. Isso a Simone também explicou. Durma bem – ela acaba de capotar depois da peregrinação de hoje.

Doção

Posted January 18th, 2010 by André Mags. Comment (0).

Esses mineiros. Perguntei para o cara do ônibus se a linha era pinga-pinga. Ele disse que o coletivo fazia algumas paradas, sim, mas só para alguém subir ou para alguém descer. Ótima informação. O negócio é que viajamos por quase duas horas até as montanhas onde os portugueses vieram se isolar por causa do ouro que era tapado de uma fina crosta negra. Daí veio o nome da cidade. O metal precioso acabou. Aí foi até legal, porque então eles criaram o doce de leite para substituir.

Invariavelmente nos intervalos entre um doce de leite tradicional, um doce de leite com chocolate, um doce de leite com passas, um doce de leite com pêssego… se passeia pelas ruelas. Os mineiros, espertinhos, gostam de um brinquedo. E fazem das ruelas um brinquedinho louco. Olha só isso. Jogo da velha nas fachadas históricas:

Também não é massa quando eles viram bagaceiros. Porque os ouropretenses podem ser beeeem bagaceiros. Que nem aqui:

Distante do presente

Posted January 18th, 2010 by André Mags. Comments (2).

Estamos no passado. Por isso a conexão só funciona na porta do quarto aqui de O Sorriso do Lagarto Hostel Pousada de Ouro Preto. Depois de conexão em Campinas e viagem de ônibus pingão desde BH, chega-se moído ao passado. Isso aqui é tipo uma cidade do Interior. De Portugal. Tem doce de leite pelas esquinas e a cabeça do Tiradentes ficou pendurada bem onde tem um monumento a ele.

E assim vai, enquanto o cumpade Washington, nosso anfitrião, não vem nos cobrar o depósito que não entrou na conta dele porque ele passou o número errado da conta. Normal. No voo da Azul, a aeromoça nos recebeu e fez a pergunta: “Pra onde é o voo?”. Na sequência, se ouve o comandante: “Esse avião é cem por cento brasileiro”.
Não morri.

Desconstruindo a altura

Posted April 14th, 2009 by André Mags. Comments (5).

Pois é, ficou um mito para desconstruirmos por aqui. A tenebrosa altura em que vivem nossos amigos peruanos e bolivianos e que volta e meia faz o cara sentir tonturas, dores de cabeça, fraqueza e o escambau – o chamado soroche, ou mal da altura. Vejamos então algumas atividades que praticamos lá pelos 3 mil, 4 mil metros, e as respectivas observações a respeito.

Respirar – Não dá pra sentir que não tem ar. Na real, tem ar. Mas tem pouco oxigênio. Como isso aparece? O corpo sente que tá vindo menos oxigênio que o normal e puxa mais  ar, com nitrogênio, gás carbônico, metano e neônio, ou seja, tudo junto, o idiota. Puxa mais ar mesmo? É, tipo, o pulmão às vezes meio que dá uma esticada involuntária e pá. No meu caso, isso era pior na hora de dormir. Acordava do nada, tentando pegar todo o oxigênio que havia no quarto de uma vez só. Isso era sinistro.

Fumar – Não fumei cigarro. Mas traguei muita fumaça, igual. As cidades são bem poluídas porque os carros são detonados, com escapamentos arrebentados e muitos movidos a diesel. É péssimo estar voltando de um passeio, cansado, subindo a lomba até o albergue e um caminhão passar largando fumaça filha da puta. O saco é ser obrigado a respirar, já que, naquela altitude, eu não conseguia trancar a respiração por muito tempo, não.

Beber – Tem todo o auê de que a bebida pega mais lá em cima. Comigo não funcionou. Ou bebi pouco, o que duvido, ou meu fígado curtido suporta também mudanças bruscas de altitude. Hipótese mais forte, essa.

Caminhar – Nego cansa bem mais rápido que no nível do mar. O que se sente é uma mistura do que foi explicado acima, a vontade de roubar todo o ar à volta, só que com o coração a milhão e as pernas fraquejando. No caso da Trilha Inca, é normal o joelhinho tremer afú.

Velocidade – Saca aquela história de que a bola vai mais rápido na altura, por causa do ar rarefeito? Pois fiz um teste. Peguei uma pedra e joguei longe. Ela me pareceu ir na mesma velocidade das que eu atirava no laguinho da Redenção.

Medo do escuro – Não aumenta com a altitude. Diminui, até, já que o fantasma da falta de ar é um ente interno da pessoa, e não externo. (Que besteira.)

Crescimento do cabelo – Mais distante do centro da Terra, espera-se que o cabelo cresça mais rápido. Para os que perdem fios afú, seria terapêutico e até poderia reverter a queda. Na prática, me pareceu que os cabelos cresceram normalmente. A barba talvez tenha aumentado mais, até porque durante vários dias na Trilha Inca eu não pude fazê-la. As unhas também cresceram. Mas, enfim, é normal que cresçam.

Sexo – Não fez a menor diferença. Acho. Nem me lembrei de pensar que estava a milhares de metros de altura. A altura máxima me parecia a cama, mesmo. Não lembro se dei alguma arfada. Não lembro se faltou ar. Enfim, só lembro das melhores partes.

"Hehehehe." "Hehehehe."

Onanismo – Desconheço efeitos na altura deste quesito.