Depois de vencida toda a burocracia do processo de cidadania no Brasil, busca, tradução, legalização no MRE, legalização no consulado, cheguei aqui em fevereiro aliviada, com a certeza de que nada mais podia dar errado. Quase sentia o gostinho de ser italiana. Doce ilusão.
Por que escolhemos a assessoria e o curso que nos trouxe a Camerino, vocês já sabem. Viemos sabendo que o processo demoraria até três meses e isso nos pareceu um tempo justo. Uma vez aqui, descobrimos que a coisa não é bem assim. No fim das contas, o tempo do processo vai depender única e exclusivamente da boa vontade de uma pessoa.
Conhecemos brasileiros que vieram depois de nós e foram tentar a cidadania em outras cidades, sozinhos, sem pagar por assessoria. Em 10 dias, os processos estavam no mesmo patamar que o meu demorou três meses para chegar, esperando pela resposta do consulado.
Tudo porque a pessoa responsável pelos processos na comune (prefeitura) de Camerino é a criatura mais sem vontade da história do funcionalismo público. E assim, estou à mercê de Bruna.
01/02 – Levamos os documentos e o comprovante de residência para dar entrada no processo.
- Hoje estou muito ocupada, voltem quarta-feira.
03/02 – Voltamos para a segunda tentativa.
Eu disse que era para vir na quarta.
- Mas hoje é quarta.
- Ah, é mesmo. Mas hoje eu não posso, venham amanhã.
04/02 – Terceira tentativa.
Ela analisa os papéis e faz um documento que comprova que o processo foi iniciado e solicita que façamos o codice fiscale (CPF) e o permesso de soggiorno (permissão para ficar na Itália enquanto aguarda a finalização do processo). Entre 15 e 20 dias, o vigile (guarda municipal) passará no seu endereço para confirmar residência, avisa.
08/02 – Codice fiscale feito.
12/02 – Visita à questura (espécie de PF, onde se faz visto, passaporte, etc.) de Macerata, para o permesso de soggiorno.
25/02 – Nada do guardinha da residência.
08/03 – Descobrimos que o guardinha havia passado três dias antes e fomos até a comune saber da funcionária quando enviaria os documentos ao consulado de Porto Alegre.
- Estou muito ocupada, tem eleições no final do mês e até lá estou cheia de trabalho, só vou poder enviar depois do dia 29.
Nesse meio tempo, em outras visitas à comune, ela insinuou que havia descoberto que no Brasil o processo demora 7 anos e por isso seria justo que aqui demorasse pelo menos uns seis meses. Afirmou também haver recebido um ofício do Ministério do Interior (que regula essa função) que determinava a cobrança de 200 euros por processo de cidadania. O tal papel, ainda bem, não apareceu até agora.
Foi necessária uma reunião com o prefeito e uma outra com ela, envolvendo a direção da escola de italiano, para que a coisa voltasse a andar, mesmo após as eleições.
30/03 – Bruna envia os documentos à Porto Alegre.
07/04 – Entramos em contato com o consulado de Porto Alegre, que nos informou ter respondido à comune.
08/04 – Acordei cedo e fui ao fotógrafo tirar as fotos para meus documentos italianos, bem faceira. Depois fomos à comune matar a saudade da amiga.
- Eu não recebi nenhum documento ainda. Até pode ser que o consulado tenha enviado, mas não chegou às minhas mãos.
09/04 – Na última sexta-feira, voltamos à comune para saber se os ditos já estavam com a querida funcionária.
E tcharã! Bruna não estava e só voltava na segunda, dia 12/04.
Segue o baile…