pra onde eu vou, venha também

Sou italiana desde as 10h da manhã de hoje. Uma camerte (seres “terrestres” que nascem em Camerino). Depois de tanto tempo esperando, é realmente muito emocionante ter as origens italianas reconhecidas. Um brinde aos meus ancestrais: Giuseppe, Lino e Izauro Cervo.

Sobre a Bruna, hoje fez todos os meus documentos em menos de dez minutos, agilidade total. Ontem fui à comune acompanhada da diretora da Escola outra vez e quase tivemos que ajuda-la a procurar o documento, pois insistia que não havia recebido, e, como era de se esperar, estava em cima da sua mesa.

  • Share/Bookmark

Depois de vencida toda a burocracia do processo de cidadania no Brasil, busca, tradução, legalização no MRE, legalização no consulado, cheguei aqui em fevereiro aliviada, com a certeza de que nada mais podia dar errado. Quase sentia o gostinho de ser italiana. Doce ilusão.

Por que escolhemos a assessoria e o curso que nos trouxe a Camerino, vocês já sabem. Viemos sabendo que o processo demoraria até três meses e isso nos pareceu um tempo justo. Uma vez aqui, descobrimos que a coisa não é bem assim. No fim das contas, o tempo do processo vai depender única e exclusivamente da boa vontade de uma pessoa.

Conhecemos brasileiros que vieram depois de nós e foram tentar a cidadania em outras cidades, sozinhos, sem pagar por assessoria. Em 10 dias, os processos estavam no mesmo patamar que o meu demorou três meses para chegar, esperando pela resposta do consulado.

Tudo porque a pessoa responsável pelos processos na comune (prefeitura) de Camerino é a criatura mais sem vontade da história do funcionalismo público. E assim, estou à mercê de Bruna.

01/02 – Levamos os documentos e o comprovante de residência para dar entrada no processo.
- Hoje estou muito ocupada, voltem quarta-feira.
03/02 – Voltamos para a segunda tentativa.
Eu disse que era para vir na quarta.
- Mas hoje é quarta.
- Ah, é mesmo. Mas hoje eu não posso, venham amanhã.
04/02 – Terceira tentativa.
Ela analisa os papéis e faz um documento que comprova que o processo foi iniciado e solicita que façamos o codice fiscale (CPF) e o permesso de soggiorno (permissão para ficar na Itália enquanto aguarda a finalização do processo). Entre 15 e 20 dias, o vigile (guarda municipal) passará no seu endereço para confirmar residência, avisa.

08/02 – Codice fiscale feito.
12/02 – Visita à questura (espécie de PF, onde se faz visto, passaporte, etc.) de Macerata, para o permesso de soggiorno.
25/02 – Nada do guardinha da residência.
08/03 – Descobrimos que o guardinha havia passado três dias antes e fomos até a comune saber da funcionária quando enviaria os documentos ao consulado de Porto Alegre.

- Estou muito ocupada, tem eleições no final do mês e até lá estou cheia de trabalho, só vou poder enviar depois do dia 29.

Nesse meio tempo, em outras visitas à comune, ela insinuou que havia descoberto que no Brasil o processo demora 7 anos e por isso seria justo que aqui demorasse pelo menos uns seis meses. Afirmou também haver recebido um ofício do Ministério do Interior (que regula essa função) que determinava a cobrança de 200 euros por processo de cidadania. O tal papel, ainda bem, não apareceu até agora.
Foi necessária uma reunião com o prefeito e uma outra com ela, envolvendo a direção da escola de italiano, para que a coisa voltasse a andar, mesmo após as eleições.

30/03 – Bruna envia os documentos à Porto Alegre.
07/04 – Entramos em contato com o consulado de Porto Alegre, que nos informou ter respondido à comune.
08/04 – Acordei cedo e fui ao fotógrafo tirar as fotos para meus documentos italianos, bem faceira. Depois fomos à comune matar a saudade da amiga.

- Eu não recebi nenhum documento ainda. Até pode ser que o consulado tenha enviado, mas não chegou às minhas mãos.
09/04 – Na última sexta-feira, voltamos à comune para saber se os ditos já estavam com a querida funcionária.
E tcharã! Bruna não estava e só voltava na segunda, dia 12/04.

Segue o baile…

  • Share/Bookmark

Silvio, je t'aime
Além de querer conhecer o país e continuarmos o estudo do idioma, uma das razões de termos escolhido a Itália _ e especificamente Camerino _ foi a possibilidade de termos a cidadania italiana reconhecida em três meses, enquanto no Brasil a espera na fila pode passar de 10 anos.

A Aline vai fazer pela família dela, uma prima já tinha buscado todos os papéis, foi só acrescentar o que faltava, barbada. Já o meu caso foi bem mais complicado, se arrasta há cinco anos entre busca de documentos, correções e suprimentos na Justiça. Estes documentos que precisaram ser supridos se perderam em um incêndio no cartório de Garibaldi em 1909.

Finalmente, no início de 2009, tudo estava corrigido e reposto, beleza. Neste meio tempo, o bonitão da foto aí em cima voltou ao poder na Itália e as regras mudaram, ficaram mais rígidas. Essas mudanças levaram à descoberta de esquemas de brasileiros que se aproveitavam da destruição dos cartórios (outros dois da Serra também pegaram fogo) para forjar os documentos da cidadania. Sabe aquela história de ser amigo do juiz, do promotor, etc? Pois é.

Então, em dezembro de 2009, já com a passagem comprada, documentos traduzidos e cerca de R$ 8 mil mais pobre (mais ou menos o que a família toda gastou com o processo desde o início), fui ao consulado “legalizar” meus documentos. O Brasil não é signatário da Convenção de Haia, nossos documentos não tem validade lá fora sem isso.

E a legalização foi negada. Não tenho direito à cidadania italiana porque a certidão de casamento do meu trisavô Secondo, o imigrante, e a de nascimento do filho dele, meu bisavô Olympio, foram consumidos pelas chamas do fogo do inferno que queimou o maldito cartório de Garibaldi! A única possibilidade de reverter isso é encontrar um documento assinado pelo Secondo reconhecendo o Olympio como filho dele.

Ter apresentado os documentos religiosos, outros papéis da época, registrados em cartório, onde diz FILHO LEGÍTIMO, e ter encontrado um irmão do meu bisavô ainda vivo, com 96 anos, que poderia confirmar o parentesco de Secondo e Olympio, não conta para as autoridades italianas.

Continuo procurando algo improvável, tipo partilha de bens ou registro de imóvel onde possa ter a assinatura do velho e que cite os filhos, mas já era, já.

Só me resta casar. Rá!

  • Share/Bookmark