pra onde eu vou, venha também

Saímos da Itália na semana passada, passamos involuntariamente uma noite em Genebra, partimos para o sul da França, onde ficamos até quinta-feira passada. Desde então, estamos em Lausanne, na Suíça, e daqui seguimos esta semana para Paris, Barcelona, Vêneto (Vicenza, Posina, Asolo e Veneza). O embarque para o Brasil está previsto para o dia 19, de Roma.


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Às 13h já esperava o Dani aflitamente, às 13h05min não posso descrever. Estava ali, no lugar que ele tinha me deixado, com três mochilas que devem pesar mais de 60 quilos juntas.

Às 13h10min, ouvindo a terceira chamada para o trem, resolvi me arrastar com a bagagem até a plataforma e sair do local onde havíamos combinado de nos encontrar. Nosso vagão era o terceiro da primeira classe, que ficava la no fundão, mas os bilhetes estavam comigo e o Dani não sabia desses detalhes.

Caminhava ao lado do trem como uma presidiária que carrega a bola de ferro presa ao pé (sonhava com a mala de rodinhas). Talvez ele tivesse chegado e ído direto para o trem, pensava enquanto o procurava. Quando o guardinha apitou para mim e o moço no auto-falante pediu para “manter distância da linha amarela”, me dei conta que as portas estavam fechando. Corri até a entrada mais próxima a tempo de trancar com a mão, ela se abriu enquanto eu orava: não fecha, não fecha! Ao som dos apitos cada vez mais próximos, fiz isso outras três vezes. Eis que vi o Dani lá no início do plataforma e gesticulei com toda a força que me restava para ele entrar no trem.Vi que ele se dirigiu a porta e ergueu o braço como quem se segura para subir e não pensei duas vezes, até porque o guardinha já tava quase me alcançando com aquele apito infernal. Entrei.

Atravessei uns cinco vagões com dois mochilões e uma mochila pequena. Larguei as três no assento e fui procurar alguém da Trenitalia para que chamasse o Dani no auto-falante, afinal ele não sabia qual era a nossa poltrona.

Ri do funcionário quando me disse que tinham ligado para ele avisando que um “ragazzo” não conseguiu subir no veículo e que sua namorada estava no trem com seu bilhete. Não queria acreditar. Me rendi quando o tio ligou para o seu colega e confirmou: eu deixei o Dani.

Ele pegou outro trem e chegou em Milão uma hora depois de mim, mas a merda tava feita, afinal perderíamos a baldeação para Genebra. E perdemos.

Tivemos que pagar a taxa de reserva outra vez para outros dois bilhetes. Menos 20 euros. Como chegaríamos na Suíça às 23:18, resolvemos dormir em Genebra e encontrar os franceses no domingo. Cansados, sem almoço e nenhum franco-suíço no bolso, entramos no primeiro McDonald’s e o Albergue da Juventude nos acolheu- por outros 73 euros que não estavam previstos no orçamento.

Mas daqui da França, depois de tanto azarão, comendo muito bem, longe de Camerino, vivendo os melhores dias da nossa viagem, talvez os melhores de nossas vidas, toda experiência parece positiva.

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Eu e a Aline nos separamos. Foi em Roma, quando estávamos para começar o resto da nossa viagem, recém exilados de Camerino.

O plano era marcar o primeiro dia no nosso passe de trem com uma viagem a Chambéry, cidade em meio aos Alpes no sul da França, uma visita a amigos do curso de italiano. Decidimos também deixar uma mala de livros e excedentes na capital, que pegaremos só no retorno ao Brasil.

O passe precisa ser validado antes do uso, e os trens reservados. Isso precisa ser feito ou em agências de viagens, que em Camerino nem sabiam da existência do passe para estrangeiros, ou em uma grande estação ferroviária, e a mais próxima estava a 100 quilômetros. Seria mais simples ir direto a Termini, a estação central romana, e arriscar, afinal estamos na baixa temporada.

Dois trens de alta velocidade fazem o trajeto Roma-Milão e Milão-Torino-Chambéry, que fica na movimentada rota para Lyon. Islândia, vulcão, exposição do Santo Sudário, dã, putz, trens lotados até terça.

Falamos com nossos amigos, que se dispuseram a nos buscar em Genebra, único destino possível neste sábado, distante 86 quilômetros de Chambéry. Entre telefonemas e filas, perdemos quase duas horas em Termini, e a partida estava marcada para 13h15min. Perto do meio-dia deixei a Aline com as mochilas e peguei um táxi para deixar a mala extra na casa da Neusa, a uns 30 minutos de Termini. No retorno para a estação, a passeata contra a Justiça italiana que tinha visto na ida havia bloqueado o trânsito no centro de Roma.

Pulei do ônibus, que em condições normais faria o percurso a tempo, peguei outro táxi e cheguei em Termini às 13h16min, a tempo de correr ao lado do trem e ver a Aline, quatro vagões à frente com as mochilas, passagens e o passe, fazendo sinal para mim entrar no trem que já estava fechado dali pra trás. Quando me liguei que ela e outros passageiros na plataforma gritavam para mim apertar o botão na porta dos vagões do meu lado, era tarde, não abria mais.

Eu fiquei com uma única mochila, a que tem o laptop e o pen modem com um de nossos dois chips de celular. O outro estava no celular, no meu bolso, e não teríamos como nos falar. Procurei os funcionários da Trenitália, que foram muito atenciosos:

- Ma è veramente una tragédia – disse um deles, rindo da minha cara.

Após contatarem o trem onde estava a neo-italiana e confirmarem a história, me deixaram embarcar no próximo trem pra Milão, de onde escrevo. Se a Aline vai estar em Milão, por que não me esperou no início da plataforma, entrou no trem sem mim e se vamos chegar em Genebra hoje, ela conta depois, em outro post.

Mãe, já pode marcar a hora na benzedeira.

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É chegada a hora de deixar Camerino e torrar todo o dinheiro que nos resta. Hum, por onde começar? Talvez pela terra da rainha, hein, hein, que tal? Yes! Embarcamos para Liverpool neste sábado e lá pulamos direto no trem da Virgin rumo a Londres.

Ficaremos na capital por quatro dias, mas reservamos um dia em Liverpool para isso:

Depois voltamos para Roma e Camerino, por dois dias, para nos despedirmos, e daí a viagem segue de trem por Suíça, França, Espanha e, na saideira, Vêneto. Postaremos detalhes desse segundo roteiro quando voltarmos da Inglaterra.

N.A: Ainda estamos aceitando doações para a permanência até junho e o ingresso do festival na Alemanha. Lembrando ainda que vamos voltar pelados pro Brasil e esperamos, no mínimo, um churrasco de cada.

UPDATE: A viagem para Liverpool seria neste sábado, mas acho que o Eyjafjallajokull não vai deixar.

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Ver Amsterdã coberta de neve, mesmo que tenha sido da janela da ponte de desembarque, foi uma recompensa após o voo desde Guarulhos. Nunca tínhamos feito viagem tão longa e em um avião deste porte, mas as coisas começaram a dar erradas no guichê da KLM/Air France em São Paulo.

Pelo site da companhia, havíamos reservado as poltronas para o vôo, 57A e 57B, janela na parte traseira do Boeing. Estávamos tranqüilos, e não checamos as passagens que o funcionário da companhia nos passou. Grande erro. Quando pegamos os bilhetes na mão, pouco antes do embarque, nos demos conta que aquele maledetto em SP tinha trocado os assentos para 36D e 36E, corredor central e no meio do avião, sobre a asa.

Falei com um smurf, mas o avião estava lotado e ele sugeriu que eu pedisse para trocar com quem estivesse nos assentos desejados. Arram. O resumo da história é que o voo só não foi mais desconfortável que viajar de Porto Alegre a Tenente Portela por que o ônibus da Ouro e Prata para em quase todas as placas de Coca-Cola no caminho.

Nem a TV na poltrona, com games, seriados americanos e filmes recém-lançados no Brasil, como Bastardos Inglórios e Distrito 9, compensou a falta de espaço, a pouca inclinação das cadeiras e o movimento intenso no corredor.

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Deveríamos ter deixado Guarulhos às 21h05min de domingo, mas o Boeing 777-300 da KLM chegou atrasado a São Paulo. Com isso e mais uma checagem de documentos no desembarque, a conexão na Holanda, prevista para ter uma hora e quinze minutos, teria 45 minutos.

N.A: Leitorinho, dê play antes de continuar.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Saímos apressados do portão “E” alguma coisa rumo ao B17. Tinham nos avisado que Schiphol era grande, mas puta merda. Entramos na primeira fila diante de uma placa “passports” que vimos e, óbvio, era a errada.

Bela guarda holandesa – English?

Nós – Yes.

BGH, olhando os passaportes – O que traz vocês a Holanda?

Nós – Estamos fazendo uma conexão para Roma.

BGH, olhando as passagens – Vocês estão no lugar errado. E estão atrasados! O horário de embarque era 12h30min.

Nós – Sim, nosso vôo chegou depois do horário e estamos atrasados!

BGH – Dobrem à direita aqui, tem outro checkpoint como esse a uns 200 metros. Corram com o passaporte na mão e digam que estão atrasados.

Nós, virando as costas e iniciando desabalada carreira – Ok, thanks!

BGH, aos berros – Run, run like Forest Gump!

Ao som das gargalhadas do pessoal que estava na fila, partimos rumo ao próximo guichê, que ficava a uns 400 metros. Era 12h45min. Cerca de uma centena de pessoas se aglomerava na frente, inclusive brasileiros que estavam no nosso vôo e que também tinham conexão marcada para 13h.

Abordamos a primeira smurfete da KLM que vimos:

Nós, esbaforidos – Estamos atrasados!

Smurfete, olhando as passagens – Sim, vocês estão muito atrasados! Sigam-me.

A smurfete disse alguma coisa em holandês para o oficial, passamos na frente de toda a fila por um portão lateral e fomos ao primeiro guichê liberado. E assim chegamos à temida Imigração. Com muito sono, sem fôlego, perdidos e atrasados. Sim, caros 11 leitores, é aquele momento que provocou meses de apreensão, que poderia resultar no retorno a Porto Alegre já nesta quarta-feira.

Ele durou aproximadamente 10 segundos, tempo que o holandês levou para verificar os passaportes e carimbar, sem olhar para a nossa cara!

E daí a carreira realmente começou. Tínhamos 12 minutos para chegar ao B17. Corremos por saguões e esteiras por mais de um quilômetro, e quando estávamos a 400 metros do destino, outra smurfete começou a gesticular e gritar “mais rápido, mais rápido, vamos”, em inglês.

Entregamos as passagens “just in time” e nos acomodamos no Airbus da Alitalia que nos traria a Roma quatro minutos antes do horário de partida.

Gostaríamos de agradecer à equipe da KLM pela torcida e pela ajuda nos momentos difíceis, sem vocês este post não seria possível.

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Se o avião não cair (toc, toc toc) e a imigração em Amsterdã não nos mandar de volta — ao que pretendo resistir a ponto de conseguir, pelo menos, uns dias em uma cadeia europeia —, chegamos em Roma nesta segunda. E essa é a única parada certa além de Camerino. Ao contrário dos outros Errantes e do Felipe, não tenho muita paciência para planejar viagens.

Pesquiso sobre os lugares, claro, até para amenizar a ansiedade, mas não sei como armaria uma viagem como eles fizeram, com vários destinos em um curto espaço de tempo. Até porque isso compromete um lado legal das viagens — o inesperado. Vai ser como nossas viagens anteriores, um mapa na mão e nenhum compromisso.

Estamos neste momento em Guarulhos, aguardando o voo para Amsterdã, e devemos desembarcar em Roma às 15h. Não sei como vai ser o acesso à internet por lá, já que vamos ficar na casa de uma família, mas prometemos posts da Cidade Eterna.

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Bom, já sabem que Camerino é pequeno, bem pequeno, e alguns de nossos 11 curiosos leitores devem estar se perguntando o que se faz neste lugarejo. Aí é que entra a Scuola Dante Alighieri.

O pacote curso+hospedagem+passeios  é o grande lance da instituição que recebe pessoas do mundo todo, de todas as idades e em todos os períodos do ano. As turmas são formadas por nível de conhecimento do italiano, através de um teste realizado no primeiro dia de aula ( quem parla niente também tem vez).

Nosso contato com a Escola, bem como a assessoria na papelada da cidadania, os acertos de hospedagem (quarto individual com banheiro e cozinha compartilhada) e reserva de vaga ocorreu através da representante da Dante aqui em Porto Alegre, a Ciao Itália.

O cronograma da Dante inclui jantares, debates sobre filmes italianos, excursões a Florença, Assis, Perugia, Gúbio, Grutas de Frasassi, Riviera do Conero, Loreto, Tolentino e Castelo Caldarola, discoteca, noite de música italiana e videokê, aulas de cozinha italiana, jantar internacional. Os destinos das excursões podem ser alterados se o grupo de estudantes tiver interesse e mais viagens podem ser programadas mediante $.

Como vamos fazer o curso por dois meses, devido à espera pela cidadania, que pode chegar a três meses, o cronograma será repetido no segundo mês, isso seria um pouco chato, por isso reservamos esse período para fazer nossos passeios pela Itália.

Outra coisa legal é que escola funciona junto da Unicam, uma das universidades mais antigas do mundo, com mais de 800 anos. Podemos utilizar o restaurante universitário a módicos 4 euros, quadra de esportes, bibliotecas e toda a infra-estrutura do campus.

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Silvio, je t'aime
Além de querer conhecer o país e continuarmos o estudo do idioma, uma das razões de termos escolhido a Itália _ e especificamente Camerino _ foi a possibilidade de termos a cidadania italiana reconhecida em três meses, enquanto no Brasil a espera na fila pode passar de 10 anos.

A Aline vai fazer pela família dela, uma prima já tinha buscado todos os papéis, foi só acrescentar o que faltava, barbada. Já o meu caso foi bem mais complicado, se arrasta há cinco anos entre busca de documentos, correções e suprimentos na Justiça. Estes documentos que precisaram ser supridos se perderam em um incêndio no cartório de Garibaldi em 1909.

Finalmente, no início de 2009, tudo estava corrigido e reposto, beleza. Neste meio tempo, o bonitão da foto aí em cima voltou ao poder na Itália e as regras mudaram, ficaram mais rígidas. Essas mudanças levaram à descoberta de esquemas de brasileiros que se aproveitavam da destruição dos cartórios (outros dois da Serra também pegaram fogo) para forjar os documentos da cidadania. Sabe aquela história de ser amigo do juiz, do promotor, etc? Pois é.

Então, em dezembro de 2009, já com a passagem comprada, documentos traduzidos e cerca de R$ 8 mil mais pobre (mais ou menos o que a família toda gastou com o processo desde o início), fui ao consulado “legalizar” meus documentos. O Brasil não é signatário da Convenção de Haia, nossos documentos não tem validade lá fora sem isso.

E a legalização foi negada. Não tenho direito à cidadania italiana porque a certidão de casamento do meu trisavô Secondo, o imigrante, e a de nascimento do filho dele, meu bisavô Olympio, foram consumidos pelas chamas do fogo do inferno que queimou o maldito cartório de Garibaldi! A única possibilidade de reverter isso é encontrar um documento assinado pelo Secondo reconhecendo o Olympio como filho dele.

Ter apresentado os documentos religiosos, outros papéis da época, registrados em cartório, onde diz FILHO LEGÍTIMO, e ter encontrado um irmão do meu bisavô ainda vivo, com 96 anos, que poderia confirmar o parentesco de Secondo e Olympio, não conta para as autoridades italianas.

Continuo procurando algo improvável, tipo partilha de bens ou registro de imóvel onde possa ter a assinatura do velho e que cite os filhos, mas já era, já.

Só me resta casar. Rá!

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Camerino

Numa conversa com a professora de italiano na Acirs, descobrimos a Escola Dante Alighieri em Camerino, que, segundo ela, aliava curso de língua e cultura italiana com assessoria para a cidadania.

Após uma pesquisa de custo-benefício com outras assessorias e claro, e muitas, muitas contas, escolhemos Camerino para armar a barraca (?). A cidade medieval de aproximadamente 7 mil habitantes pertence à  Região de Marche e fica a 150 quilômetros de Roma.

A temperatura lá nessa época do ano fica entre -5 e 10 graus (bye bye, Forno Alegre \o/), e, sim, vamos conhecer a neve e de quebra bevere molto vino e mangiare molta pasta, em casa ou em um dos quatro restaurantes da cidade (4!). Mas não menosprezem questa piccola città ainda. Camerino possui uma universidade com 9 mil estudantes, mais cabecinhas que o total da população.

Os bares também não enchem uma mão, parece até que só tem um, mas só acreditamos vendo. A previsão é de muuuita calmaria, quebrada apenas pela programação da escola. Assunto para outro post.


Visualizar Camerino MC em um mapa maior

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