pra onde eu vou, venha também

Estamos de volta. No domingo, 16, em Barcelona, pegamos um trem noturno rumo a Milão, e de lá, o trem para Roma, de onde partiu nosso voo na quarta.

Entre os catalães, passamos alguns dos melhores momentos da viagem, entre eles o show do Jeff Ballard Trio no Jamboree:

A última parte da viagem, pelo Vêneto, não saiu, por um furo no nosso planejamento. Esse trem que faz Espanha-Itália só opera terças, quintas e domingos, e nosso voo partia na quarta. Isso deixaria pouco mais de um dia para percorrer Vicenza, Asolo e Posina. Isso foi só uma das coisas que aconteceram nesta última parte que mudaram minha idéia a respeito do que eu tinha dito aqui.

Planejamento em uma viagem como essa é fundamental se for depender de transporte público e hospedagem, e isso não tem a ver com ler/conhecer/se surpreender com o lugar. Ao contrário, pode até influenciar tua impressão do lugar, para melhor ou pior. Enfim, coisa de piá que não era acostumado a andar de trem.

A principal lição: se comprar um passe, não se pode começar a viagem antes de ter TODAS as reservas na mão, mesmo na baixa temporada, ao contrário do que insinua o site da Eurail. Só a reserva para certos trens, como os noturnos, pode custar mais de cem euros.

A viagem toda, os quatro meses, foi a melhor coisa que fizemos na vida, e a mais cansativa — mas um cansaço bom. Voltamos beeem pobres e felizes.

Pretendo escrever mais sobre o curso e o apartamento em Camerino nos próximos dias. Enquanto isso, passa lá no Qualquer Lugar, blog no qual o amigo André Mags vai voltar seu olhar torto para Londres, Dublin e Malta.

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Deixamos para última hora para trocar a viagem de retorno para Brasil, e recebemos mais uma mostra de quão mercenárias e incompetentes companhias aéreas podem ser, ainda mais em tempos de crise.

A viagem para a Inglaterra, além de afudê, serviria também como uma tapeada no meu visto de turista, que venceu em 25 de abril. Como a Grã-Bretanha não está no Espaço Schengen, receberia um carimbo na saída e outro no retorno a Roma. Embora oficialmente nosso visto permita apenas três meses em um período de seis na União Europeia, essa saída aumentaria as probabilidades de a regra ser ignorada. Mas aí deu vulcão.

Sem essa finta, a ideia de ficar um mês circulando irregular não agradava, enrolei até o último momento para me decidir. Depois de uma pesquisa na internet e conversar com alguns amigos, liguei o foda-se, consciente de que ser pego ou não seria/será uma questão de sorte.

Nosso voo estava marcado para as 6h de sábado, 24 de abril, e a mudança poderia ser feita até 30 horas antes da decolagem. Na quinta de tarde ligo pra KLM com o intuito de mudar o retorno para 24 de maio e, depois de 40 minutos de espera, a pior atendente atendeu (saca?) o telefone.

Senhor, para realizar esta mudança deve pagar um adicional de 750 dólares.
Mas não tem nada mais barato nem em dias próximos?
Não, senhor, só com a tarifa mais alta. Devido a vulcão, nossos voos estão superlotados.

E agora? Pagamos ou voltamos? Conversamos e decidimos gastar esse dinheiro em compras em Roma na sexta, e embarcar no sábado mesmo. Atento que você é, leitorinho, deve ter percebido que não voltamos.

Quando liguei para meu pai, dizendo que estaríamos de volta sábado, ele, morto de saudades, se dispôs a pagar a diferença. Ok, vamos falar com a KLM. Faltando uma hora para fechar o escritório deles no Brasil, ligo, espero 50 minutos, e:

KLM, em que posso ajudar?
Eu quero blablablablabla.
Um momento vou fazer os cálculos. Hummm, senhor, para esta data a mudança custaria 428 dólares
Para os dois passageiros?
Sim.
Mas não tem nada mais barato uns dias antes, uns dias depois, ou talvez em junho?
Um momento. Ah, encontrei a mesma tarifa no dia 19. Nesta data o senhor teria apenas o custo de troca, de 200 dólares.
Pode marcar!

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Ficamos três dias e meio em Paris, e choveu por dois. Não vimos tudo o que gostaríamos, nem deu pra sentir muito o clima da cidade. O que mais impressionou foi a quantidade de pessoas em alguns lugares, especialmente nas ruas estreitas de Montmartre no domingo de manhã, tipo de coisa que, ao menos pra mim, estragam o passeio.

Visitamos a Torre Eiffel, o Louvre, a Champs-Élyseés, pegamos um Bateau Mouche no Sena, todos os roteiros e lugares manjados, como convém em uma passagem tão curta. No quarto dia, quando já estávamos habituados ao metrô e os arrondissement centrais já estavam no mapa mental, partimos para Barcelona, onde ficaremos por cinco dias. Essa opção por permanecer um tempo maior na Espanha se deve mais aos horários dos trens e restrições do Eurail Pass. Por nós, teríamos um dia a mais em Paris.

Deixamos a cidade terça um pouco tristes, como ela parecia naquela manhã chuvosa, pensando na próxima vez.

Paris

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Lausanne, como Chambèry, vai ficar marcada para nós não só pela bela cidade que é, mas pela companhia. Ficamos hospedados na casa dos meus primos Thais e Patrick, que nos adotaram por oito dias. No segundo, nos levaram para conhecer um castelo numa cidade vizinha. Ok, castelos são interessantes.

Mas o tri em Gruyère, cidadezinha onde foi inventado o queijo de mesmo nome, que parece ter mais ovelhas e vacas do que habitantes, é o Museu H.R. Giger. Esse suíço é o responsável pelo visual do Alien. O bicho, a nave de ossos, o casulo, tudo coisa dele, só que o cara é mais pirado do que parece. Se for a Gruyere comprar um queijinho, recomendo uma passada no museu.

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Chegamos na França domingo, 25 de abril, com a expectativa de rever os amigos Michel, Mireille, Danielle e Marie, conhecer sua cidade, Chambéry, e ir embora no dia seguinte. Por dois motivos: não interferir com a rotina deles e seguir nosso orçamento, já que poderíamos comprometer as viagens para Paris e Barcelona. Acabamos ficando quatro dias.

Mireille foi a nossa guia a maior parte do tempo. Michel nos acolheu em sua casa e nos levou ao Mont Blanc, o ponto culminante (capisci?) da viagem e lugar mais afudê que já vimos na vida. Passamos até um dia de sol e calor (30°C!) em Lyon, acompanhados de Marcel, que conhecemos em um jantar no primeiro dia de França, e Marie. A programação foi intensa, coordenada por eles, que deixaram suas vidas de lado para nos mostrar os lugares mais belos da região, entre pausas para se empanturrar com a culinária francesa.

Foram dias cheio de surpresas, entre elas a primavera, que parece ter deixado a Itália por último este ano.

Veteranos durante o Dia da Memória em Aix-les-Bain

Cidades dos bilionários russos e árabes nos Alpes franceses

Terraços do Aiguille du Midi no Mont Blanc

Chamonix, cidade dos esquiadores ao pé do Mont Blanc

Annecy, a Veneza da Savóia

Orla do Rio Rhône em Lyon

Chambèry, capital do grande Reino de Savóia, perto da fronteira com a França

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Saímos da Itália na semana passada, passamos involuntariamente uma noite em Genebra, partimos para o sul da França, onde ficamos até quinta-feira passada. Desde então, estamos em Lausanne, na Suíça, e daqui seguimos esta semana para Paris, Barcelona, Vêneto (Vicenza, Posina, Asolo e Veneza). O embarque para o Brasil está previsto para o dia 19, de Roma.


Visualizar Roteiro em um mapa maior

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Às 13h já esperava o Dani aflitamente, às 13h05min não posso descrever. Estava ali, no lugar que ele tinha me deixado, com três mochilas que devem pesar mais de 60 quilos juntas.

Às 13h10min, ouvindo a terceira chamada para o trem, resolvi me arrastar com a bagagem até a plataforma e sair do local onde havíamos combinado de nos encontrar. Nosso vagão era o terceiro da primeira classe, que ficava la no fundão, mas os bilhetes estavam comigo e o Dani não sabia desses detalhes.

Caminhava ao lado do trem como uma presidiária que carrega a bola de ferro presa ao pé (sonhava com a mala de rodinhas). Talvez ele tivesse chegado e ído direto para o trem, pensava enquanto o procurava. Quando o guardinha apitou para mim e o moço no auto-falante pediu para “manter distância da linha amarela”, me dei conta que as portas estavam fechando. Corri até a entrada mais próxima a tempo de trancar com a mão, ela se abriu enquanto eu orava: não fecha, não fecha! Ao som dos apitos cada vez mais próximos, fiz isso outras três vezes. Eis que vi o Dani lá no início do plataforma e gesticulei com toda a força que me restava para ele entrar no trem.Vi que ele se dirigiu a porta e ergueu o braço como quem se segura para subir e não pensei duas vezes, até porque o guardinha já tava quase me alcançando com aquele apito infernal. Entrei.

Atravessei uns cinco vagões com dois mochilões e uma mochila pequena. Larguei as três no assento e fui procurar alguém da Trenitalia para que chamasse o Dani no auto-falante, afinal ele não sabia qual era a nossa poltrona.

Ri do funcionário quando me disse que tinham ligado para ele avisando que um “ragazzo” não conseguiu subir no veículo e que sua namorada estava no trem com seu bilhete. Não queria acreditar. Me rendi quando o tio ligou para o seu colega e confirmou: eu deixei o Dani.

Ele pegou outro trem e chegou em Milão uma hora depois de mim, mas a merda tava feita, afinal perderíamos a baldeação para Genebra. E perdemos.

Tivemos que pagar a taxa de reserva outra vez para outros dois bilhetes. Menos 20 euros. Como chegaríamos na Suíça às 23:18, resolvemos dormir em Genebra e encontrar os franceses no domingo. Cansados, sem almoço e nenhum franco-suíço no bolso, entramos no primeiro McDonald’s e o Albergue da Juventude nos acolheu- por outros 73 euros que não estavam previstos no orçamento.

Mas daqui da França, depois de tanto azarão, comendo muito bem, longe de Camerino, vivendo os melhores dias da nossa viagem, talvez os melhores de nossas vidas, toda experiência parece positiva.

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Eu e a Aline nos separamos. Foi em Roma, quando estávamos para começar o resto da nossa viagem, recém exilados de Camerino.

O plano era marcar o primeiro dia no nosso passe de trem com uma viagem a Chambéry, cidade em meio aos Alpes no sul da França, uma visita a amigos do curso de italiano. Decidimos também deixar uma mala de livros e excedentes na capital, que pegaremos só no retorno ao Brasil.

O passe precisa ser validado antes do uso, e os trens reservados. Isso precisa ser feito ou em agências de viagens, que em Camerino nem sabiam da existência do passe para estrangeiros, ou em uma grande estação ferroviária, e a mais próxima estava a 100 quilômetros. Seria mais simples ir direto a Termini, a estação central romana, e arriscar, afinal estamos na baixa temporada.

Dois trens de alta velocidade fazem o trajeto Roma-Milão e Milão-Torino-Chambéry, que fica na movimentada rota para Lyon. Islândia, vulcão, exposição do Santo Sudário, dã, putz, trens lotados até terça.

Falamos com nossos amigos, que se dispuseram a nos buscar em Genebra, único destino possível neste sábado, distante 86 quilômetros de Chambéry. Entre telefonemas e filas, perdemos quase duas horas em Termini, e a partida estava marcada para 13h15min. Perto do meio-dia deixei a Aline com as mochilas e peguei um táxi para deixar a mala extra na casa da Neusa, a uns 30 minutos de Termini. No retorno para a estação, a passeata contra a Justiça italiana que tinha visto na ida havia bloqueado o trânsito no centro de Roma.

Pulei do ônibus, que em condições normais faria o percurso a tempo, peguei outro táxi e cheguei em Termini às 13h16min, a tempo de correr ao lado do trem e ver a Aline, quatro vagões à frente com as mochilas, passagens e o passe, fazendo sinal para mim entrar no trem que já estava fechado dali pra trás. Quando me liguei que ela e outros passageiros na plataforma gritavam para mim apertar o botão na porta dos vagões do meu lado, era tarde, não abria mais.

Eu fiquei com uma única mochila, a que tem o laptop e o pen modem com um de nossos dois chips de celular. O outro estava no celular, no meu bolso, e não teríamos como nos falar. Procurei os funcionários da Trenitália, que foram muito atenciosos:

- Ma è veramente una tragédia – disse um deles, rindo da minha cara.

Após contatarem o trem onde estava a neo-italiana e confirmarem a história, me deixaram embarcar no próximo trem pra Milão, de onde escrevo. Se a Aline vai estar em Milão, por que não me esperou no início da plataforma, entrou no trem sem mim e se vamos chegar em Genebra hoje, ela conta depois, em outro post.

Mãe, já pode marcar a hora na benzedeira.

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Voltamos a falar de Camerino, já que falar de Londres não foi possível (ódio no coração).

Camerino não é composta só de prédios antigos e medievais. Fora do muro a cidade se desenvolve com outras características. A idade dos edifícios diminui, aparecem os condomínios e os edifícios comerciais deixam de ocupar apenas o térreo e se estabelecem em prédios inteiros construídos para esse fim. Ainda que maiores e com maior liberdade formal, frequentemente exibem as referências locais, seja na utilização do material de construção ou em elementos arquitetônicos característicos.

Os conjuntos sede das faculdades de Medicina, Informática e Biologia da UNICAM são os representantes da nova arquitetura camerinense que chamaram a minha atenção. Os edifícios possuem uma qualidade arquitetônica devidamente contemporânea, arquitetura essa que nós, estudantes brasileiros, frequentemente podemos observar apenas através das páginas de revistas, na internet, ou, talvez, visitando uma grande cidade. Nunca em um lugarejo de 7 mil habitantes.

Os créditos ficam a cargo dos arquitetos e professores da Faculdade de Arquitetura da UNICAM,  Umberto Cao (Medicina e Informática) e Giuseppe Ciorra e Massimo Perriccioli ( Biologia).

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Domingo passado, depois de uma semana procurando, encontramos um voo barato para a Inglaterra, de Roma a Liverpool por 180 euros, ida e volta para os dois. Na segunda, reservei os albergues. Na terça, o tour dos Beatles e os trens de Liverpool a Londres.

Pois na quarta o vulcão impronunciável entra em erupção. Na quinta, a nuvem de cinzas começa a rumar pro continente. Até sábado, data da partida, tudo estaria bem, pensei.

E assim ainda estamos em Camerino, cerca de 170 libras mais pobres, sabendo de cor os lugares que visitaríamos em Londres, ouvindo Beatles pra esquecer.

Não tem trem, ônibus ou barco a preço ou em uma data viável, então essa fica para o próximo giro europeu. Bosta.

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